A queda nas cirurgias bariátricas e a explosão das canetas emagrecedoras abriram uma demanda concreta por acompanhamento psicológico e muitas clínicas ainda não estruturaram esse fluxo.
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Escrito por ·
Júlia Putini

Entre 2023 e 2024, a procura por cirurgia bariátrica caiu 20% no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. No mesmo período, as importações de canetas emagrecedoras como Ozempic e Mounjaro movimentaram R$ 9 bilhões em 2025, com crescimento de 88% em relação ao ano anterior.
Esse deslocamento de demanda tem uma implicação direta para clínicas de psicologia e saúde mental: o perfil de paciente que antes chegava por indicação pré-cirúrgica agora aparece durante ou após o uso das canetas e, frequentemente, sem encaminhamento formal. O problema é que poucos consultórios estruturaram um fluxo de atendimento específico para esse contexto.
Por que esse paciente precisa de acompanhamento especializado
O uso de semaglutida (Ozempic) e tirzepatida (Mounjaro) interfere no sistema de recompensa cerebral, nos hormônios reguladores do apetite e, indiretamente, na química relacionada ao humor. Uma análise de dados da Organização Mundial de Saúde identificou aumento desproporcional de relatos de pensamentos suicidas com o uso de semaglutida, especialmente em pacientes que também usavam antidepressivos ou ansiolíticos.
Além dos riscos diretos, há um padrão comportamental recorrente: pacientes que passaram anos com sobrepeso e encontram resultado rápido com o medicamento tendem a atribuir toda a mudança à substância.
Assim, ficam sem trabalhar a relação com o corpo, os gatilhos emocionais da compulsão alimentar ou os hábitos que sustentaram o ganho de peso. Quando o medicamento é interrompido, por custo, efeito colateral ou indicação médica, a recaída é frequente e o impacto emocional, significativo.
Pontos clínicos que exigem atenção nesse perfil de paciente
Uso concomitante de antidepressivos ou ansiolíticos, que aumenta o risco de interações com os efeitos neuropsiquiátricos dos GLP-1;
Expectativa desproporcional em relação à perda de peso, especialmente em quem iniciou o tratamento por pressão estética;
Ausência de acompanhamento multidisciplinar, entre endocrinologista e psicólogo;
Histórico de obesidade de longa data, o que envolve camadas de autoestima e identidade que o medicamento não resolve.
O novo perfil de paciente e o que isso muda na agenda
Pacientes com obesidade grau 1 (IMC acima de 30) ou grau 2 (IMC acima de 35) com comorbidades, que antes eram candidatos frequentes à cirurgia bariátrica, passaram a ser o perfil preferencial para o tratamento medicamentoso. Band Isso significa que clínicas de psicologia passaram a receber pacientes que antes seguiam uma rota diferente, com triagem pré-cirúrgica estruturada e equipe multidisciplinar definida.
Fora desse fluxo, o paciente chega ao psicólogo sem histórico consolidado, sem avaliação prévia de saúde mental e, muitas vezes, sem que o médico prescritor tenha feito qualquer triagem psiquiátrica básica. A clínica que souber receber esse paciente com protocolo claro — anamnese adaptada, critérios de encaminhamento definidos e comunicação com o prescritor — tem vantagem real na qualidade do atendimento e na fidelização.
O que estruturar antes de abrir essa frente
Clínicas que querem atender esse perfil com consistência precisam de três definições operacionais:
um protocolo de triagem que inclua histórico de saúde mental e uso de medicamentos;
critérios claros de encaminhamento para psiquiatria quando houver risco; e
um modelo de comunicação com outros profissionais do caso, seja por prontuário compartilhado ou por carta de referência padronizada.
Sem essa estrutura, o atendimento acontece, mas sem previsibilidade de resultado e a clínica absorve uma demanda nova sem os instrumentos para gerenciá-la.
Para organizar os indicadores que mostram se esse fluxo está funcionando, este guia ajuda a identificar quais métricas todo gestor da saúde precisa monitorar mensalmente: Indicadores que todo gestor da saúde precisa verificar mensalmente

Escrito por
Júlia Putini
Especialista em conteúdo e marketing da Tivita.















